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A marca gigante da infância

Madrugada do aniversário da Frederica. O relógio marca, precisamente, 2h10. No silêncio da casa, entre uma panela a cozer bacalhau, um bolo no forno e duas mãos a cortar cebola e alhos, ponho-me a pensar no porquê de tudo isto.

Já aqui vos falei da importância que dou aos aniversários das minhas filhas; do gosto que me dá ver tudo decorado; no prazer que tenho em ver os seus sorrisos pela manhã. Gosto de as surpreender. E ponho-me a pensar porquê.

E no silêncio da casa, no meio de ilações malucas saudáveis de psicóloga, descobri porquê! E continuei a pensar. E pus-me a recordar. E dei por mim a sorrir. E juntei as peças. E juntei essas peças a outras tantas, que vieram com a minha bagagem de quando acabei o curso. E ainda as juntei a outras tantas, que vieram com os anos de experiência que levo a trabalhar com as famílias que me fazem crescer. E descobri! E sentei-me a escrever o que descobri.

E tudo isto surge com a minha mãe, na minha infância e adolescência, quando ela me fazia sentir a rainha das rainhas nos meus anos. Nesse dia, não ia à escola. Esse dia era nosso. Acordava de manhã. Pequeno-almoço, um sorriso e muitos beijos à minha espera. Depois uma prenda, comprada num passeio de mãos dadas. Era sempre assim. E eu desejava assim. E desejava aquele dia. E não houve ano em que não desejasse que chegasse o dia. E sentia-me feliz.

E estas recordações levaram-me a outras recordações. Às conversas sábias que a minha mãe tinha comigo. Aos lanches que preparava logo de manhã bem cedo quando eu ia a algum passeio com a escola. Aos fatos de Carnaval que me fazia, tudo à mão, tudo ela e a sua máquina de costura, e eu sentada no sofá, na véspera do cortejo de Carnaval, à noite e já com sono, mas sem me querer deitar porque faltava a última prova da roupa. Aos almoços de Domingo, ao cheiro da carne assada e do arroz doce. Às férias na praia. À preparação da nossa roupa e das nossas malas, quando íamos para a colónia de férias. Ao dia de ir ao pediatra, que pressupunha sempre beber um sumo e comer um queque.

E estas recordações levaram-me a outras recordações. Aos desabafos que muitas mães que atendo têm comigo, contando-me que a sua infância foi muito sofrida. Às histórias de vida de tantas outras pessoas, que nada têm a ver com a minha história de vida. Ao desamor que tantos meninos e meninas sofrem e sofreram, o que faz com que hoje ou amanhã sejam ou venham a ser mães e pais mais amargurados.

E todas estas recordações, pensamentos e ilações levam-me a um único sitio: à minha mãe. Foi ela, e muito ela, responsável pela minha alegria na infância e responsável pela mãe que hoje sou. Porque a infância deixa uma marca gigante na vida de qualquer um de nós. E foi isso que descobri. Descobri que foi a minha mãe que me fez querer ser uma melhor mãe, que me deu alento para estar acordada até tão tarde, a preparar surpresas, a cuidar das recordações da Frederica e da Constança. Foi a minha mãe que me deu o sossego emocional que hoje tenho. Foi a minha mãe que me ensinou a pensar positivo. Foi a minha mãe que me mostrou o que é ser um belo Ser Humano, sem maldade, repleto de amor. Eu sou o que sou, por tudo o que a minha mãe fez e não fez na minha infância. E tenho sorte. Tanta sorte de ter uma mãe que, às 2h10 da madrugada, me faz sorrir quando penso no que pela minha infância ela fez. Muito grata, mãe. Sempre grata.

E deixo-vos algumas recordações deste sétimo aniversário da minha filha mais velha, esperando eu que, também ela, daqui a uns largos anos, quando estiver a preparar a festa de um dos seus filhos, se recorde da sua infância, também com um sorriso nos lábios! Se assim for, juro-vos, já posso morrer feliz!

 
 
 

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