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Como te vejo, mãe

E quando respiro fundo e me predisponho a olhar para ti e para os desafios que me trazes, aprendo mais um pouco.

Eis o que aprendi hoje, que por momentos me gelou o coração e me deixou com as lágrimas nos olhos.

Semana de testes. Semana de estudar. No que à escola diz respeito, as coisas têm corrido muito melhor, desde o momento em que tomei consciência que esta era uma responsabilidade da F. e me despi de quereres que me serviam a mim e tão só ao meu ego. Escrevi na altura um post sobre isso: Os estudos cá por casa.

Porém, não corre tudo sobre rodas, e ainda vão surgindo contratempos. O maior, e para mim o mais desafiante, é a forma como a F. reage ao facto de ter uma resposta errada, ou incompleta, ou uma palavra mal escrita, ou uma frase sem sentido.

A partir desse momento, já não há qualquer conexão na nossa comunicação, e torna-se muito difícil manter-se qualquer forma de diálogo que seja produtivo.

Ela chora, fica profundamente irritada, fecha qualquer canal por onde possamos tentar entrar, amuando e respondendo o mais torto possível ao que lhe tentamos dizer.

Porque tenho feito um trabalho interior de grande reflexão, tenho lidado com estes acessos de raiva da forma mais empática que tenho conseguido. Entendo que por detrás de toda esta agressividade, existe uma menina que precisa de ajuda.

Hoje, tentei fazê-lo, mas sem sucesso, confesso. E resolvi que a melhor decisão para ambas era terminar o estudo por ali e preparar a hora de ir para a cama. Havia dentes para lavar e foi o que lhe pedi para fazer (hoje não pedi, mandei…).

Eu precisava de respirar. Precisava de olhar para a minha filha sem o filtro de mãe. E a minha filha precisava de ser vista por mim com o direito que ela tem de ser como é.

Alinhei-me com as minhas intenções. Tratei da minha filha mais nova. E quando me senti serena, entrei no quarto. A F. já estava deitada. Continuava a tentar lidar com a sua raiva da forma mais irritante que há (para mim). Voltei a respirar fundo. Voltei a alinhar-me. E falei com o coração.

Disse-lhe, sem julgamentos e apenas reconhecendo, o que vinha observando de há uns tempos a esta parte. Que me apercebia que para ela era muito difícil quando eu lhe dizia que algo não estava bem. Que sentia a sua irritação e frustração. E que estava preocupada com o que isso lhe estava a causar por dentro.

E depois de algumas palavras empáticas, e no meio de soluços de um coração que se vai acalmando, resolvi deixar uma pergunta no ar, para que a minha filha, de 7 anos, pensasse nela com tempo, com calma, com amor. Para que depois, outro dia, amanhã ou depois, pudéssemos falar sobre isso, com tempo, com calma, com amor.

Mas a minha filha de 7 anos, não precisou de tempo, nem de calma e, com todo o seu Amor, respondeu à pergunta que lhe fiz, que julgava eu ser uma pergunta que lhe fosse causar estranheza, no sentido de não ter uma resposta rápida para ela.

Pedi-lhe eu para pensar: “E agora é importante que penses qual o efeito que tem em ti haver algumas coisas que fazes menos bem. O que significa isso para ti? Para a tua pessoa? Em que é que isso te define? Será que isso define a pessoa que és?”

E eis a resposta que obtive, rápida, sem que quase eu pudesse pestanejar: “Eu sei, mãe. É porque tu fazes tudo bem. É porque tu não erras!”

E eu gelei. E os meus olhos encheram-se de lágrimas. E percebi que me vês perfeita e te vislumbras imperfeita se eu, no alto da minha perfeição, te digo que algo está mal.

Oh, filha querida, estou tão longe de ser perfeita, nem quero sequer parecer perfeita aos teus olhos.

E também eu, rapidamente, sem precisar de tempo e de calma lhe disse: “Sou tudo menos perfeita, e não desejo ser perfeita. Quero poder rir-me dos erros que cometo. Quero aprender com eles. Quero poder chorar. Gritar. Sorrir. Não me quero esconder atrás de uma perfeição que não existe. Quero ser livre e não carregar o peso da perfeição aos ombros. Quero poder errar contigo. Com a tua irmã. Com o teu pai. E quero que me continuem a amar por isso. E quero que tu, minha filha, me vejas com todos os defeitos que eu tenho, para que possas olhar para ti sem quereres ser perfeita!”

E percebi que isto de ser mãe ainda é mais difícil do que eu imaginava, porque mesmo que façamos tudo com muita imperfeição, eles olham sempre para nós com a maior ligeireza que pode haver. E isso assusta-me. Porque vão querer sempre ser perfeitos como nós somos. Vão querer sempre crescer à nossa imagem e com a nossa aprovação.

Tenho medo. Fiquei com medo!

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