Dar à Luz
- Irina Vaz Mestre

- 25 de mai. de 2017
- 4 min de leitura
Acho que nenhuma mulher que teve um bebé se esquece da forma como decorreu o parto. É, por si só, um momento marcante.
E independentemente do resultado final – que pode ser feliz ou não [já vivi bem de perto resultados nada felizes e sou tão grata pelo facto de, até ao dia de hoje, tudo ter corrido pelo melhor] – o dia do parto é inesquecível.
Hoje deixo em palavras algumas lembranças que o tempo pode apagar, mas que eu quero para sempre recuperar.
Porque o dia em si não será esquecido; os momentos vividos não serão apagados; mas os entretantos podem ser desvanecidos.
Hoje escrevo sobre dar à luz e sobre como foi dar à luz esta bebé, que neste momento dorme nos meus braços e completa 7 dias.
Damos à luz assim que descobrimos, efetivamente, que estamos grávidas.
Começamos a dar à luz assim que ponderamos engravidar ou assim que começamos a colocar a hipótese de virmos a ser mães.
Fazemo-lo de uma forma mais ou menos Consciente.
Nesta gravidez, optei por ser muito Consciente. Digo que optei, simplesmente porque me propus mudar o rumo pelo qual estava a seguir. Foquei-me nessa mudança. E todo este processo acabou por coincidir com o início desta gravidez.
À medida que os dias, as semanas e os meses iam passando, também eu decidi passar por eles da forma mais despreocupada que fosse capaz. Lidaria com cada assunto que surgisse somente quando ele surgisse.
Isso fez com que não pré-ocupasse a minha mente com nada que não estivesse diretamente relacionado com o agora. Garanto-vos que durante estes 9 meses surgiram questões na minha vida pessoal que me poderiam ter deixado muito fragilizada, se eu optasse por seguir esse caminho. Não optei.
O resultado de tudo isto foi o nascimento de um sentimento de tranquilidade que nasceu tímido e foi aumentando com todas as suas forças ao longo de quase 41 semanas.
E com esse sentimento foram também aumentando as semanas de gestação. Já quase no final do tempo, soube que a médica obstetra que me seguia iria estar fora precisamente na semana da data provável do meu parto.
Podíamos ter antecipado uns dias; grávida pela terceira vez, com contrações já há algum tempo e um colo permeável a 3 dedos, podíamos clinicamente avançar. Mas esse não era o tempo. Não era o desta bebé e, consequentemente, não era o meu.
Contra a voz que me dizia que era bem mais seguro se tudo fosse feito com o acompanhamento da minha médica, deixei andar e decidi que fosse quando fosse. Com médicos, sem médicos, perto de casa, longe de casa.
Com 40 semanas e 4 dias nasceu a Maria do Carmo. Pelas mãos da minha médica e de mais uns quantos que vieram para assistir. E hoje olho para trás e vejo que tudo correu de acordo com o único plano que fiz ao longo da gravidez: deixar ir. E até durante o trabalho de parto eu deixei ir…
Já no hospital e numa sala de dilatação, vieram as contrações mais frequentes, mas ainda leves, e eu deixei-me ir. Respirei. Senti. Estive comigo e só comigo neste processo. Entre as 15h e as 17h, as contrações aumentaram de intensidade e frequência.
Entre visitas de enfermeiros e da minha médica, fui dizendo que estava tudo bem, e constataram que por volta das 16h30 tinha o colo permeável a 4 dedos.
Brincou-se sobre se a Maria do Carmo nasceria antes ou depois da meia-noite.
Por volta das 17h15 o meu marido fica comigo já sem interrupções, porque até à altura ia saindo para tratar de toda a gestão que mais duas filhas implica.
Aqui, e neste momento, as contrações já eram muito, muito fortes. Respirava na altura da contração, descansava na sua pausa.
Decidimos começar a monitorizar o tempo entre contrações. Corria um minuto, minuto e meio entre cada uma. Punha-me de cócoras. Respirava. E à respiração já se juntava um gemido.
Neste processo os minutos passam e eu sinto que havia chegado a hora. Peço para chamar uma enfermeira. Pergunta-me se quero tomar algum analgésico.
Lembro-me de pensar que ela não estava a perceber. Que as dores que eu já tinha não acalmavam com analgésico algum. Ela falava comigo, e eu já nem conseguia responder, porque o intervalo entre contrações era minúsculo.
Pensei pedir ao meu marido para telefonar ou ir chamar a médica. Quando me levanto para lhe pedir isso, vejo a minha médica na sala e fiquei tão grata por isso.
A verdade é que já havia começado a expulsão, e eu ia ter a bebé mesmo ali, numa sala que não era a sala de partos, sem epidural, sem nenhum analgésico ou nada que me toldasse os meus sentidos.
E quando me apercebi que seria assim, então, uma vez mais, deixei-me ir, e não me importei com o que gritei, porque foram gritos de expulsão de dor e gritos de quem não quer mascarar nada.
É o que é e é como é! E assim foi.
Nasceste tu, meu anjo, num momento tão mágico, tão cru e tão sentido, tal como sempre almejei.
E quando deixamos ir, confiamos e visualizamos o que de melhor pode haver…as coisas boas aparecem. Eu acredito que sim!
For Love, With Love ❤️


IrinaVazMestre | Psicóloga & Facilitadora de Parentalidade Consciente
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