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Decisões Conscientes

Para quem tem filhos em idade escolar, estamos na segunda semana das férias de Natal. E logo no primeiro dia de férias, aqui por casa, tomaram-se decisões conscientes. Decisões que já se queriam ter tomado antes e já tinham sido pensadas antes, ainda em tempo de aulas, mas que, pela sua natureza e consequências, foram sendo adiadas.

Deu-se assim o primeiro passo. Voltemos então ao início das férias. Normalmente, em tempo de férias, tenho a sorte de ter onde deixar a Frederica. Gosta muito de ir para o colégio onde andou, atual colégio da irmã. Em tempo de férias o colégio enche-se de ex-alunos, que lá vão para matar saudades, e é uma alegria.

Pede-me então sempre para ir. A Constança também fica feliz, e fica ansiosa pelas férias da “Chica” (como lhe chama).

Em tempo de férias, as manhãs são menos apressadas do que o normal. No entanto, ainda existem horários a cumprir, e apesar de estar tudo um pouco mais relaxado, temos horas para sair de casa.

Ainda que de manhã seja a Constança que faz mais birras (para vestir, fazer a higiene ou pentear-se; faz sempre tudo a chorar ou a lamuriar-se), é a Frederica que mais molenga e que mais nos faz atrasar (atrasar-nos-íamos se eu deixasse).

É uma característica que é dela e que a define, desde sempre. Demora imenso tempo a comer, perde-se nos seus pensamentos enquanto faz a higiene, pede licença à outra perna para vestir umas calças. Vou aceitando que seja assim, ainda que me deixe louca por dentro. “Não temos todos de ter o mesmo ritmo ou fazer as coisas da mesma maneira”, penso eu.

Contudo, e há medida que vai crescendo e a idade vai aumentando, acho importante que se consciencialize das suas responsabilidades e que aprenda a gerir o seu tempo, de acordo com o que há para fazer.

E é aí que entra a responsabilidade de cumprir os horários de manhã e, nomeadamente, o horário de entrar na escola. Se no primeiro ano sentia essa responsabilidade como minha, na íntegra, julgo que a partir do segundo ano a responsabilidade tem de começar a ser partilhada.

Eu faço a minha parte: despertar toda a gente num horário que nos permita fazer com tempo suficiente tudo o que é crucial; deixar a roupa definida para vestir; fazer lanches e pequenos-almoços; ir dando as orientações de manhã. O resto, é da sua responsabilidade cumprir (vestir-se sozinha, fazer a sua higiene e comer – não posso mesmo mastigar por ela).

Acontece que esta, que é a parte dela, se não estou sempre em cima, demasiadamente em cima, não é cumprida a tempo e horas.

Depois de algumas semanas de constantes avisos e algumas zangas, pensei que teria de mudar alguma coisa na minha forma de agir. Com consciência, pensei que tinha de me afastar deste comportamento instintivo de a querer proteger de não cumprir as suas obrigações. Percebi que me estava a esforçar mais do que ela, em algo que era dela e não meu. Percebi também que uma intenção que era boa, estava a gerar conflitos e a provocar uma desconexão.

E senti que tinha chegado a altura da F. perceber as consequências de fazer as coisas ao ritmo que havia andado a fazer. E isso significaria, muito provavelmente, chegar atrasada à escola, pela manhã.

Pois bem, falaria com a professora dela, para explicar esta minha decisão. Avisaria que era muito provável que num ou outro dia a Frederica chegasse atrasada à escola, não porque eu me tivesse atrasado, mas porque havia decidido não me interpor nas responsabilidades que a ela eram devidas.

Não cheguei a ter esta conversa com a professora. Os dias foram passando e a conversa não aconteceu. No entanto, chegou o primeiro dia de férias. E com ele a extrema molenguice da F.

Nesse dia tudo foi feito com mais calma. Mas chegou a uma certa altura em que todos já estávamos praticamente despachados. E a F. ainda de pijama e a terminar o pequeno-almoço. Lembrei-me então que seria a altura ideal para a responsabilizar. Eu ficaria em casa nesse dia. Podia ficar com ela. Ocasião perfeita. E consciente.

Avisei-a uma única vez, dizendo-lhe: o pai está quase a despachar-se. Quando o pai estiver despachado, sai com quem também já estiver despachado. Vou optar por não te dizer mais nada. Tens a higiene para fazer e a roupa para vestir, e já não tens assim tanto tempo. Decides tu. Ou vais para o colégio da tua irmã ou ficas em casa.

Acho verdadeiramente que a F. nunca pensou que eu fosse capaz de por em pratica o que lhe disse. Ficou tranquilamente a terminar o pequeno-almoço. Noutra altura eu tinha desligado a televisão para que não se distraísse. Começava a vesti-la. Levava-a até à casa de banho. Mas não fiz nada disso. Deixei-a simplesmente decidir. E ela decidiu. E chorou tanto quando percebeu que, naquele dia, não ia para o colégio da irmã.

No dia a seguir, ainda mal tinha aberto os olhos (exagero, mas tudo bem), já estava vestida e de higiene feita. E estamos agora na segunda semana de férias. Sem horários e rotinas da manhã. E sem certezas das repercussões que esta decisão consciente terá nas próximas semanas, em que voltarão os horários e exigências diárias.

No entanto, uma certeza fica: em 2017 vou conscientemente atribuir maior responsabilidade pessoal a esta filha que está a crescer e a aprender. Porque a minha intenção, enquanto mãe, é tomar decisões conscientes e ser uma mãe mais consciente, à luz do que acredito ser educar com conexão e igual valor.

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