Despedir a culpa por justa causa
- Irina Vaz Mestre

- 5 de jun. de 2016
- 4 min de leitura
Exerço psicologia há 14 anos. Há 14 anos me formei e há 14 anos que tenho tido a sorte de poder trabalhar para aquilo que estudei e naquilo com que sempre sonhei. Aconteceu! E todos os dias, nos meus momentos de meditação, que não têm hora nem sítio marcado, agradeço por poder seguir o meu propósito de vida, aquele que considero ser um dos meus propósitos de vida e que resumo em poucas palavras: ajudar os outros!
São 14 anos a ouvir, a analisar, a aprender, a tecer constatações, a relacionar factos e a encontrar padrões comuns de comportamento. E hoje venho falar-vos de algo que vejo acontecer na maioria das casas, na maioria das famílias, em tantas alturas da vida de tanta gente e que consegue condicionar a nossa forma de educar, a nossa forma de pensar, a nossa forma de agir, o sossego do nosso coração e a clareza da nossa alma. A culpa entra pela nossa porta e não pede permissão. E fica para jantar. E fica para dormir. E instala-se e arranja um quarto e um lugar no sofá. E convida amigos. E aumenta. E já faz parte.
No outro dia dei de caras com ela. Vi-a! E despedi-a por justa causa. Foi agora, recentemente, no mês de Maio. Mês de muitas atividades nas escolas da F. e da C. Mês do dia da mãe e do dia da família. Mês de muitos convites, de ambas as escolas, e mês de uma virose chata que levou as duas à cama e que me levou a mim a parar de trabalhar e a ser só mãe.
De todas as solicitações para estar nas escolas, em dias diferentes, tive de escolher a quais iria. Até então, foi a primeira vez, em 6 anos de mãe, que tive de optar ir ou não ir. No meio destes pensamentos, a culpa espreitou, mas não lhe dei ouvidos. Estava certa e segura do que estava a fazer. A F. tinha uma apresentação de um espetáculo de dança que iriam repetir no arraial da escola. Estava decidido. Não assisto ao espetáculo, porque vou poder fazê-lo no final do ano letivo. Comuniquei-lhe a minha decisão. Expliquei-lhe porquê. Anuiu. Descansei.

No dia da apresentação do espetáculo fui buscar a F. à escola. Como faço sempre. Aproveito o caminho para casa, enquanto estamos no carro só as duas, para pôr a conversa em dia. Assim fiz. Perguntei como tinha corrido. Respondeu que bem. Fez-se um silêncio. Engoli a minha vontade de perguntar se haviam ido muitos pais. O silêncio manteve-se. A F. é tagarela, fala pelos cotovelos, nada dizia e percebi que lhe tinha custado o facto de eu não ter ido. Fiz o que faço com os meus meninos, os meus outros meninos, dei voz aos seus sentimentos. Perguntei-lhe se estava triste por não ter ido. E aí começou a tagarelar. Finalmente!
E o que me disse, a forma como me disse, levou a que a culpa entrasse no nosso carro e se sentasse ao meu lado. Ouvi, compreendi e não retorqui. Tinha todo o direito de estar triste, zangada e de ter sentido a minha falta. E era assim mesmo que se deveria sentir. Ainda bem que foi assim que se sentiu.

E chegou a minha vez de falar. E ía pedir-lhe desculpa. E ía mostrar-lhe toda a minha culpa e compensá-la por esta minha ausência. E ía comprar-lhe um gelado. Ou outra coisa qualquer. E foi aí que olhei para o lado e vi a culpa a sorrir para mim. E foi aí que encostei o carro, mandei a culpa embora, virei-me para trás e, com toda a minha calma e amor, disse à minha filha que lamentava não ter ido, que não havia coração mais apertado do que o meu durante todo o dia, mas que hoje tinha sido a primeira vez que ela havia experimentado uma das tantas contrariedades da vida. E que eu não me sentia nada culpada por isso, porque ela pôde experimentá-lo comigo, com alguém que a ama incondicionalmente e que ela sabe que está lá. É um amor que não foge na minha ausência.
E que ela tinha apenas duas formas de lidar com este acontecimento: ou escolhia o caminho da lamentação, da tristeza, da vitimização ou então escolhia olhar para tudo o que de bom a vida tem, para todos os momentos que estamos juntos, para a alegria que foi ter conseguido apresentar alguma coisa sem ter uma cara familiar para lhe dar confiança [a Frederica é muito insegura de si mesma] e seguir em frente, segura de que pela vida fora existirão muitos ‘nãos’ e pronta para lidar com eles, ainda que com algumas lágrimas nos olhos, por vezes!
Virei-me para a frente, avancei com o carro e por dentro senti-me feliz, porque no meio de tanto aperto, consegui ponderar que sou uma boa mãe, que faço o que posso, que posso errar e que nem por isso erro na educação delas. E que até o erro as educa, porque a vida é imperfeição e é saber lidar com isso. E é connosco que eles podem aprender.

Sejam seguros de Vós próprios, do que são enquanto pai e enquanto mãe. Aceitem que erram e permitam fazê-lo. Decidam aprender com os erros e pedir desculpa quando for preciso. Compreendam que nós somos os primeiros a poder mostrar aos nossos filhos a imperfeição do Ser Humano. Não se culpem por não estar em todo o lado, ao mesmo tempo, ou por quererem também o vosso tempo. Aceitem que é assim, e conseguirão educar com mais firmeza, com mais segurança, com mais certeza nas vossas decisões. E os nossos filhos irão agradecer-nos, porque se sentirão seguros das vossas decisões.
Naquele momento, despedi a culpa por justa causa, e senti-me leve por isso!

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