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Dias de mudança

Aproveitámos estes dois feriados, que se colaram ao fim-de-semana, e fomos sair. Fizemo-lo tal como fizeram um sem número de famílias, a avaliar pelo trânsito que apanhámos quando iniciámos a nossa viagem em busca de calor e de praia.

E logo assim que iniciámos a nossa viagem, entre a excitação de sair da rotina e a vontade de apanhar sol e sentir o mar nos pés, percebemos que estes iam ser dias de mudança. Tínhamos a certeza disso, como se de uma previsão meteorológica se tratasse: trânsito, mas com algumas abertas; céu limpo, com sol e sem nuvens de mau humor ou aguaceiros que pudessem prejudicar a chegada ao nosso destino. E, para nos alegrar ainda mais a nossa viagem, outra informação meteorológica nos havia sido dada; o nosso tufão, de seu nome Maria Constança, estava adormecido, literalmente!

Sim, em nossa casa vive um tufão. E como qualquer tufão que se preze, não tem hora marcada nem momento certo para aparecer. Aparece. Simplesmente aparece, e com ele provoca toda a destruição que é suposto um tufão provocar. E tem sido assim desde que a C. nasceu. No entanto, há momentos e sítios mais propensos para o tufão aparecer. E um dos sítios que reúne as condições perfeitas para este tufão aparecer é no carro. Espantem-se! Sim, no carro, aquele sítio onde qualquer bebé dorme, sendo que há pais que até vão dar voltas de carro, de propósito, para adormecer os filhos. Pois no nosso caso, qualquer viagem de carro com a C. é um martírio. O nosso tufão grita, porque não quer estar sentada; reclama, porque o cinto está apertado; implica com a irmã, porque pôs o pé no lugar dela; abre a goela, porque não está a dar a música que queria. Mas desta vez, o tufão estava adormecido, e permaneceu adormecido até chegarmos ao nosso destino.

E também durante estes quatro dias o tufão pouca destruição provocou…mesmo naquelas situações que, muito provavelmente, provocariam o despertar do tufão, elas não despoletaram ventos nem tempestades; uma ligeira brisa, talvez, mas nada que nos fizesse corar dos pés à cabeça ou nos pusesse em ponto de ebulição, a ferver por dentro. Saímos da rotina, largámos telefones, vivemos sem horas, respeitámos vontades, parámos no tempo. E foram dias de mudança.

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Mas estes dias de mudança não nasceram no dia de Portugal. Não apareceram no dia de Portugal e durante estes quatro dias. Foram mudanças que têm, ao longo dos últimos tempos, sido estabelecidas, praticadas, implementadas. E foram mudanças minhas! Tão minhas e só minhas. Mudanças que só a mim me dizem respeito e que de mim dependem. Demorei a entender aquilo que o nosso tufão me tentava transmitir, desde que nasceu: ou fazes as coisas à tua maneira, e provocas muita destruição; ou entendes os sinais e adaptas as tuas atitudes para que os ventos não soprem tão forte e a destruição não seja tão demolidora. E assim foi. Despi-me de preconceitos. Despi-me de perfeccionismos. Deixei de querer ser a mãe perfeita, com filhas perfeitas, que não têm atitudes incorretas ou fora do que considerava serem as atitudes corretas.

Tracei um plano para mim. Priorizei o que achava inadmissível e que era incongruente com os nossos valores. Fui consistente na disciplina que impus em todos esses comportamentos e aceitei desvalorizar tudo o resto. E mudei. Respirei fundo muitas vezes, humorizei situações que antigamente me levavam ao limite, cantei e dancei entre birras, dei beijinhos a caras zangadas, respondi “gosto de ti” a um “não gosto de ti” ou a um “és má”, inventei histórias entre colheres de sopa, não obriguei a comer tudo. E o tufão foi aparecendo menos vezes. E com menos intensidade. E foi sendo mais fácil sorrir. E foi sendo mais fácil respirar. E foi sendo mais fácil pensar que afinal é possível que as coisas corram bem.

E antes de irmos passar uns dias fora, ou antes de irmos almoçar a um restaurante ou jantar a casa de amigos, ou antes de irmos passar um dia fora sem que a C. possa dormir a sua sesta, eu preparo-me! Encho-me de paciência, repito para mim mesma que a mudança deve ser minha, para que se veja a mudança nos outros, revejo tudo o que fui aprendendo, antecipo comportamentos e, uma vez mais, deixo-me de preconceitos e dispo-me de vergonhas e aceito que são crianças, que podem fazer birras e que, nem por isso, o fim-de-semana vai correr pior ou trazer más recordações. Tenho dias melhores. Tenho dias piores. Estes foram dias bons!

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Lembrem-se que a melhor mudança que podemos provocar na nossa vida é a nossa. É através dela que provocamos a mudança nos outros, porque isso provoca um ajustamento de tudo o que nos rodeia. A forma como respondemos aos nossos filhos, a forma como lhes dizemos que não, a forma como reagimos a uma birra, ditará se esse comportamento se prolonga no tempo ou se, devagarinho, vai desvanecendo e ganhando menos força. As nossas mudanças também provocam mudanças internas, tornam-nos mais tolerantes, menos exigentes, menos ansiosos. Comigo tem sido assim. E estamos melhor! Bem melhor!

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