Estado de graça
- Irina Vaz Mestre

- 14 de jan. de 2017
- 2 min de leitura
Às vezes sinto que estar grávida não é um estado de graça. Porque sinto que tenho de provar mais. Porque acho que devo mostrar que sou capaz. Porque julgo que estar grávida não me deve subvalorizar.
Sinto-me a lutar contra o que penso que os outros pensam. Que vou, profissionalmente, ser menos competente. Dar menos de mim. Descurar o que sou. Quem eu sou. O que faço. Como faço.
E dou por mim a fazer mais. A querer mais. A ser mais. A exigir mais.
Dou por mim a querer mostrar ao mundo que posso ser mulher, mãe, grávida, ter filhos, ter um emprego, ser esposa e dona de casa.
Dou por mim a ser eu e mais eu e outra vez eu.
E quando chego a casa, ao meu mundo, ao meu espaço, ao meu eu, dou por mim a deixar de querer ser eu e mais eu e outra vez eu.
Dou por mim a deixar de querer mostrar tudo o que mostrei durante o dia. E sou eu. Simplesmente eu. Alguém cansado de achar que tinha de mostrar tudo.
E agradeço por ter em casa alguém que não me exige ter de ser o que esperam de mim. E quando sinto isto, e quando agradeço isto, penso inevitavelmente que às vezes nós, pais, não fazemos isto aos nossos filhos.
Porque com certeza também eles chegaram a casa a querer deixar de mostrar tudo o que tiveram de mostrar e provar durante o dia. Com certeza também eles chegaram a casa a quererem ser eles próprios. Com birras. Sem birras. Com amuos. Sem amuos. Com vontade. Sem vontade.
E nós, pais, somos a continuação do mundo lá fora. Com expectativas. Com exigências. Sem conexão.
E quando penso nisto, culpo-me por momentos, mas rapidamente sorrio, porque fui consciente em mais uma descoberta. Mais um passo dei no caminho da Parentalidade Consciente. E a partir de hoje, também eu aceitarei o que são as minhas filhas. Sem expectativas. Sem exigências. Com conexão.
E agradeço por isso!


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