Nem tudo é feitio
- Irina Vaz Mestre

- 19 de jul. de 2016
- 3 min de leitura
No que toca a crianças e a formas de ser e de estar, ouvimos muitas vezes a frase “Ui, tem cá um feitio…”, como se este senhor, o “feitio” fosse o culpado de tudo. Usa-se o senhor feitio para culpar muita coisa, ou melhor, para desculpar muita coisa.
É verdade que há crianças e crianças, personalidades e personalidades, e, claro está, feitios e feitios. Mas também há muita permissão, muita falta de regras, muitas desculpas e culpas postas no feitio.
Senão vejamos. Já aqui vos tenho falado do tufão cá de casa, e do feitio que o tufão cá de casa tem. Já aqui vos tenho falado de tudo o que este tufão me tem ensinado e da mãe mais flexível em que me tornei graças aos ventos ciclónicos que este tufão nos trouxe. Depois da tempestade, vem a bonança, e este tufão, depois de tanta tempestade, tornou-me numa mãe melhor e tornou toda a nossa família mais completa.

Pois este tufão hoje, bem ao fim do dia, no meio de banhos e de jantar para fazer, já sem ser filha única (papel a que já se tinha habituado), fez das suas. E o que ao princípio, das primeiras vezes, seria considerado como senhor “feitio” (e por isso fui tolerando) deixou rapidamente de o ser e passou a chamar-se senhora “falta de educação”. Ora bem:
Chegou do colégio sempre a implicar com a irmã. Feitio…
Chegou a altura de arrumar os brinquedos, não quis. Feitio…
Chegou a altura de ir tomar banho, nem pensar. Feitio…
Chegou a altura de se ir acalmar e pensar no que tinha andado a fazer desde que chegou a casa e diz-me, com todas as letras, e com tudo menos com bom feitio, para a deixar em paz. Ora, na minha casa, no seio da minha família, seja com 3, 13 ou 30 anos, não deixo que se confunda entre senhor “feitio” e senhora “falta de educação”. E a senhora “falta de educação” às vezes aparece, achando que está disfarçada de senhor “feitio”, para fazer das suas.
E nem tudo é feitio, e muitas vezes é falta de educação que, ao princípio, se confunde com feitio e, depois, quando queremos que passe a bom feitio, já só nos resta dizer “não é defeito, é feitio…”.
Tracem para vós o que, dentro dos vossos valores e no seio da vossa familia, é possível tolerar e sejam intolerantes com tudo aquilo que são atos de desamor e de faltas de respeito.
Lembrem-se que, para aquelas crianças que são mais difíceis, somos sempre nós, Pais, que temos de ter a última palavra. É esse o nosso dever. Não se escondam atrás do feitio dos vossos filhos, encarem-no antes como um desafio e desafiem-se a Vós próprios a arranjar novas soluções. Não permitam um mau feitio aos 3 anos, só porque ainda se é pequeno. Este mau feitio aos 3 anos vai tornar-se a vossa dor de cabeça, aos 6.
Sejam consistentes no que exigem e na disciplina que impõem e as nossas crianças agradecem, porque lhes estamos a ensinar o que ultrapassa a nossa liberdade e interfere na liberdade dos outros. Porque a senhora “falta de educação” entranha-se e depois, dentro das nossas quatro paredes, já não se estranha. Mas quando saímos cá para fora, a senhora “falta de educação” não é confundida com o senhor “feitio” e aí começam os problemas para quem e a quem nunca foi ensinada a diferença entre ser e fazer.


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