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O inverno e as doenças

Até gosto do inverno. Dos dias frios. Dos casacos. Das mantas. Da lareira que acompanha o aconchego. Do vinho tinto que sabe melhor com frio.

Gosto da combinação dos dias de sol com o frio que nos beija a cara. Gosto das comidas quentes de forno. Dos pratos mais calóricos. Das sopas. Do chá. Da chuva a bater no vidro e de ficarmos em casa todos à molhada, na cama que é dos pais, mas que na verdade é mais dos miúdos do que dos graúdos.

Também há coisas que não gosto no inverno. Claro que sim. E não me quero focar nelas, simplesmente porque não me quero alimentar de queixumes. Quero alimentar-me do que gosto, do que aprecio. Quero focar-me no que de bom o inverno nos pode dar.

Mas no que toca a doenças, as do inverno são mesmo, mesmo chatas! E por mais que deseje não pensar nisso, torna-se difícil quando passas noites a fio a ouvir tossir e nada podes fazer (ou muito pouco). Quando vês narizes entupidos e tão vermelhos de assados que estão, de tanto se assoarem. Quando ouves gemer de frio por causa da febre que sobe e teima em não descer. Quando achas que tudo já passou e, quando lhes beijas a testa por amor, descobres outro ardor. Quando queres cuidar e os teus filhos de tão fartos que estão, já não te deixam nem tocar.

Não sei como é convosco, como se passam as coisas aí por vossa casa, com os vossos filhos. Eu por cá tenho uma filha que me deixa com os nervos em franja sempre que está doente. Porque nunca quer tomar a medicação. Porque se recusa a por soro. Porque cerra a boca a cada remédio que tem de tomar. Porque assoar-se é uma obrigação. A coisa piora se os dias em que está doente se prolongam no tempo. É assim desde bebé.

E eu fico desesperada. Porque vejo a febre a subir. Os sintomas a aparecerem. Os cuidados a terem de ser acionados e a luta entre nós a persistir. Tudo isto me deixa muito mais exausta do que as noites sem dormir ou os dias passados em salas de espera de consultórios.

De tantos métodos tentados, só existe um que posso dizer que funciona e que está alinhado com a minha intenção enquanto mãe: a paciência. Muitas vezes tenho de sair um pouco. Dar tempo ao tempo. Atrasar a medicação 5, 10, 20 minutos. Voltar a tentar. Voltar a sair. Já houve vezes que tive de lhe dar a medicação à força. Saí derrotada. Morta por dentro. Não quero isso. Não desejo isso.

Estes dias têm sido de paciência. Muita paciência. E muita superação. Minha. Digo-lhe, firme e gentilmente, e respirando muito, para não me descontrolar: “Tenho de cuidar de ti, filha. Sou tua mãe. É isso que as mães fazem. Cuidam dos filhos até não conseguirem mais. Não gosto de te ver doente. Fico muito preocupada quando estás doente. Fico ainda mais preocupada quando percebo que não aceitas a minha ajuda. Gosto de cuidar de ti. De te ver melhor. De te tratar. Ajuda-me, por favor. Vou ficar a sentir-me muito melhor. E tu também”.

Tenho dito coisas deste género. Tenho optado por lhe explicar como me sinto quando não consigo cumprir o meu propósito, a minha função. Tenho centrado o discurso em mim. Deixei de ameaçar. De gritar. De lhe dizer que assim fica internada no hospital ou que se não toma o remédio apanha uma palmada ou fica de castigo. Já o fiz. E não resultou. Deixei de o fazer. E a verdade é que desta forma, as coisas têm resultado. Melhor para mim. Melhor para ela.

Se ainda há resistência? Há.

Se toma a medicação ou faz o que lhe peço logo à primeira? Não. Nem pensar. Nem uma única vez.

Se ficou tudo mais fácil? Nem por isso.

Mas de uma coisa estou eu certa. Esta é a forma como quero conduzir a nossa relação. Com base no respeito e na colaboração. Quero afastar da relação com as minhas filhas a velha ideia (e pouco fundamentada) de que uma relação de pais e filhos deve ter por base o autoritarismo e o poder, porque só assim funciona.

A verdade é que funciona, dependendo do que nós desejamos construir no futuro e da forma como nós desejamos que a inteligência emocional dos nossos filhos se desenvolva.

Eu quero criar filhas saudáveis. De corpo e mente. Quero contribuir para que as minhas filhas desenvolvam a capacidade de dar e exprimir a sua opinião, as suas necessidades e os seus limites com base no respeito e na colaboração. Quero que afastem o medo das suas vidas. Quero que possam dizer e que se orgulhem de dizer, alto e em bom som: “Oui, c’est moi”.

Quero mesmo que sejam saudáveis. E por isso, vou ter de continuar a dar-lhes toda e qualquer medicação que precisem – a da gripe e a das emoções. A primeira é dada em formato de xarope, comprimidos ou cápsulas. A segunda, através do que lhes digo, do que faço e de como faço.

For Love, With Love.

IrinaVazMestre

|Psicóloga & Facilitadora de Parentalidade Consciente|

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